Herpetofauna em colônias de abelhas sem ferrão
O artigo científico analisa a interação entre a herpetofauna (conjunto de anfíbios e répteis) local e as colmeias de abelhas sem ferrão em um meliponário no Amapá, durante 11 semanas de observações em 111 colmeias.
O trabalho de Richardson Frazão sobre Herpetofauna em colônias de abelhas sem ferrão, com o título “Herpetofauna em colônias de abelhas sem ferrão (Meliponini) manejadas em um fragmento de floresta amazônica brasileira: predação ou abrigo?” foi publicado no Herpetology Notes, periódico online de acesso aberto da Societas Europaea Herpetologica (Sociedade Européia Herpetológica).
O artigo científico analisa a interação entre a herpetofauna (conjunto de anfíbios e répteis) local e as colmeias de abelhas sem ferrão em um meliponário no Amapá, durante 11 semanas de observações em 111 colmeias. Os pesquisadores investigaram se espécies de anfíbios e répteis utilizavam as estruturas das colmeias como abrigo ou como local estratégico para a predação. Os resultados revelaram que, enquanto a perereca Scinax ruber utiliza preferencialmente caixas vazias como refúgio diurno, outras espécies, como o sapo Trachycephalus typhonius, foram flagradas alimentando-se ativamente das abelhas. A presença da cobra Leptophis ahaetulla sugere ainda a existência de uma cadeia alimentar complexa dentro do ambiente de manejo. Conclui-se que as colmeias representam recursos ambientais significativos que ajudam a sustentar a diversidade herpetológica na região amazônica.
Link original do artigo (em inglês): https://herpetologynotes.org/index.php/hn/article/view/110
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Segue abaixo o trabalho na íntegra, traduzido para o português:
Herpetofauna em colônias de abelhas sem ferrão (Meliponini) manejadas em um fragmento de floresta amazônica brasileira: predação ou abrigo?
As abelhas desempenham um papel fundamental na preservação ambiental, sendo responsáveis por até 90% da polinização de angiospermas em florestas tropicais (Giannini et al., 2015). A criação de abelhas sem ferrão é conhecida por ser uma prática de fácil manejo (Nogueira-Neto, 1997; Campos e Peruqueti, 1999). No entanto, vários cuidados são necessários para manter as colônias em boas condições e a produção eficiente; por exemplo, a limpeza do meliponário para evitar ataques e incidentes causados por animais predadores e/ou peçonhentos (Nogueira-Neto, 1997).
A produção de mel é uma atividade importante para a socioeconomia de comunidades tradicionais na região amazônica, especialmente no estado do Amapá (Heinzen, 2019). No Amapá, existem 143 espécies de abelhas descritas até o momento (Moure et al., 2024), das quais pelo menos 53 são espécies de abelhas sociais e sem ferrão (Silveira et al., 2002; Frazão e Silveira, 2004). Ao contrário da apicultura (criação de abelhas com ferrão), na meliponicultura as colônias são instaladas para manejo, permitindo agrupar uma quantidade maior de colônias com foco na produção de mel. Esse modelo é implementado no meliponário do Bioparque da Amazônia Arinaldo Gomes Barreto, localizado no município de Macapá (Amapá), onde três espécies de abelhas estão sendo manejadas e exibidas como atrações para visitas guiadas: *Melipona compressipes* (Fabricius, 1804), *Melipona* *fulva* Lepeletier, 1836 e *Melipona paraensis* Ducke, 1916 (Frazão e Silveira, 2004). Essas abelhas possuem vários predadores naturais, incluindo invertebrados (p. ex., formigas e forídeos; Villas-Bôas, 2012) e vertebrados (p. ex., anuros; Silvester et al., 2018), que tendem a permanecer nas proximidades das colmeias devido à facilidade de encontrar alimento e abrigo, atacando as abelhas quando estas entram ou saem das colmeias (Pereira et al., 2012).
A pesquisa foi realizada em colmeias povoadas e despovoadas, com o objetivo de investigar quais espécies da herpetofauna local utilizam o meliponário do Bioparque da Amazônia Arinaldo Gomes Barreto (0,0391° N, 51,0968° O) para abrigo ou alimentação. Partimos da hipótese de que espécies de anuros podem ser predadores naturais e oportunistas de abelhas sem ferrão e que buscam abrigo em locais escuros e úmidos. O Bioparque possui uma área de 107 hectares que inclui três ecossistemas: floresta de terra firme, savana amazônica e campos periodicamente inundáveis (localmente chamados de “ressaca”). Ele está localizado no cinturão verde da cidade de Macapá, entre grandes fragmentos florestais na área urbana (Fonseca e Silva, 2020).
Para observar a presença de espécies da herpetofauna no meliponário, realizamos inspeções em 111 colmeias. As inspeções ocorreram durante três dias por semana, totalizando 11 semanas (de outubro a dezembro de 2020) e 42 horas de observação. As observações foram realizadas no período da manhã (8h00–10h00).
A perereca *Scinax ruber* (Laurenti, 1768), a perereca-leite *Trachycephalus typhonius* (Linnaeus, 1758) e a cobra-papagaio *Leptophis ahaetulla* (Linnaeus, 1758) foram encontradas durante as inspeções (Fig. 1). Em colmeias desabitadas, registramos um total de 40 indivíduos de *S. ruber*, um de *T. typhonius* e um de *L. ahaetulla*. Três indivíduos de *S. ruber* foram registrados em uma colmeia habitada, em um espaço vazio do módulo superior, entre a tampa e uma parede de geoprópolis (composta por argila, resinas e própolis) construída pelas abelhas. Não observamos esse indivíduo de *S. ruber* predando abelhas.
Scinax ruber é uma espécie comumente encontrada em ambientes urbanizados e áreas perturbadas (Lima e outros, 2012). Vários autores comentaram sobre o ecologia e hábitos alimentares de Scinax ruber, ou seja composto principalmente por insetos (Muñoz-Guerrero et al., 2007; Blanco-Torres et al., 2017). Portanto, a abundante presença de abelhas (~150.000) em um meliponário, combinado com a presença de outros predadores invertebrados naturais de abelhas em meliponários, como moscas e formigas (Villas- Boas, 2012; Frazão, 2013), levanta a hipótese de que esta abundância de presas favorece a atração de sapos para alimentar. Especialmente porque as colmeias também oferecem abrigo. Espécies de Scinax têm hábitos alimentares generalistas e usar a estratégia de forrageamento sentar e esperar (Silva et al., 2021). No entanto, a observação de que a maioria de S. ruber estavam presentes em colmeias vazias, sem evidência de predação de abelhas, desafia essa hipótese. Um potencial preferência por atacar outros insetos presentes, como formigas, aranhas e mosquitos (Muñoz-Guerrero et al., 2007; Blanco-Torres et al., 2017), pode ser uma explicação pela ausência de predação de abelhas dentro das colmeias. Entretanto, não observamos S. ruber predando abelhas na entrada da colmeia. Ao contrário do Trachycephalus typhonius, que foi observado predando abelhas na entrada de uma colméia (Fig. 1C).
As interações entre espécies locais podem, no entanto, ser mais complicado. Ou seja, a presença de Traquicefalia typhonius na entrada da colmeia (Fig. 1C) e Leptophis ahaetulla que estava no topo das colmeias (Fig. 1D), que são espécies generalistas e oportunistas na dieta e no habitat (Measey et al. 2015; Glaudas et al. 2019), indicam uma teia de predação (abelhas-rã-cobra). Trachycephalus typhonius é um grande hilídeo noturno que habita ambientes perturbados, como agroecossistemas e até habitação humana (Weiler et al., 2013). Em geral, sua dieta inclui aranhas, ortópteros, dípteros, homópteros, coleópteros e himenópteros (Vaz- Silva et al., 2004; Duré e Kehr, 2006; Araújo Silva et al., 2024), incluindo outras espécies de rãs (Sugai et al., 2017). Leptophis ahaetulla é uma espécie diurna e semi-arbórea cobra, inofensiva para os humanos e se alimenta predominantemente de sapos hilídeos, especialmente Scinax sp. (Albuquerque e outros, 2007; Alcântara et al., 2017). Além disso, observações de tentativa de predação por Leptophis em outros grandes hilídeos sapos, incluindo Boana boans (Gama e Costa- Campos, 2014), Traquicéfalo cf. mesofaeus (Solé et al., 2010) e Osteocephalus taurinus (Cunha et al., 2023) foram documentados. Como anuros do Scinax gênero são abundantes no meliponário, a presença de T. typhonius e L. ahaetulla podem, portanto, estar relacionados com alimentos disponibilidade.

Figura 1. Mosaico de figuras com indivíduos encontrados nas colmeias do Meliponário do Bioparque da Amazônia Arinaldo Gomes Barreto. (A) Sistema de abelhas sem ferrão em meliponário. (B) Scinax ruber dentro da colmeia. (C) Trachycephalus typhonius esperando na entrada da colméia para atacar as abelhas. (D) Leptophis ahaetulla sob uma colmeia no meliponário à noite. (E) Indivíduo de Scinax ruber observado durante o dia no meliponário. Fotos de Richardson Frazão.
† Dedicamos este trabalho ao nosso estimado colega e mentor, Dr. Carlos Eduardo Costa-Campos (1974–2025), cujo falecimento prematuro, enquanto este manuscrito estava sendo revisado, nos deixou com tristeza e um vazio que lutamos para preencher. 1 Escola Nacional de Botânica Tropical – ENBT / Rio de Janeiro Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro 22460-036, Brasil; e Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá – IEPA, Núcleo de Biodiversidade – NUBIO, Macapá, Amapá 68901-025, Brasil.
Laboratório de Herpetologia, Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal do Amapá, Campus Marco Zero, Macapá, Amapá 68903-419, Brasil.
* Autor correspondente. E-mail: ric_frazoni@hotmail.com © 2026 por Herpetology Notes. Acesso aberto sob licença CC BY-NC-ND 4.0.
Herpetofauna em colônias de abelhas sem ferrão manejadas em um fragmento de floresta da Amazônia brasileira
Nossos resultados indicam que *S. ruber* apresenta uma forte preferência por colmeias vazias, utilizando-as como abrigo artificial diurno. Além disso, a ausência de predação de abelhas sem ferrão por *S. ruber* sugere que as colmeias se tornam um local ideal de abrigo; por serem fechadas, impedem a entrada de luz e de possíveis predadores, como serpentes. Até o momento, nossa hipótese de que *S. ruber* seria um predador de abelhas não foi confirmada. Para uma análise mais conclusiva, a avaliação do conteúdo estomacal de *S. ruber* constitui outro método para examinar essa hipótese. Observamos que as colmeias oferecem uma rica oportunidade de alimentação para *Trachycephalus typhonius* (que preda abelhas; Fig. 1C) e *L. ahaetulla* (que preda formigas e anuros). A plasticidade trófica em anuros e serpentes generalistas confere-lhes uma vantagem em ambientes perturbados, onde a disponibilidade de presas varia (Segura *et al.*, 2007; López *et al.*, 2015). Nossos resultados sugerem que as colmeias de abelhas sem ferrão são recursos importantes para múltiplas espécies da herpetofauna. Estudos futuros poderão demonstrar que as colmeias de abelhas sem ferrão são componentes fundamentais do ambiente para a manutenção da diversidade herpetológica.
Agradecimentos
Agradecemos à Néctar Consultoria (CNPJ: 08.819.199/0001-96) pelo apoio técnico e financeiro na coleta de dados no meliponário. CECC recebeu um auxílio-pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Proc. 307697/2022-3).
Referências
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